Direito ao grito

“Porque há o direito ao grito. Então eu grito.” Assim como Rodrigo S. M., em A hora da estrela, grita para expor o sopro de vida de Macabéa, eu grito pelos invisíveis. Pelos tantos que nem se reconhecem na vida porque esse direito nunca lhes foi dado. Grito pelas balas que não são de borracha na favela. Grito pelas crianças sujeitas à situação de rua porque nunca tiveram a oportunidade de sequer pisar na escola. Grito pelo negro que leva tiro da polícia sem razão e pela negra arrastada pelas ruas até a morte. Grito pela falsa democracia em que vivemos. Grito pelo preconceito que chega ao extremo em nossa sociedade, que ainda se diz “tolerante” e “respeitosa”. Com quem? Mas grito, sobretudo, pelo silêncio, pelas vozes caladas.

_dsc0225Pela mídia que finge que nada disso acontece e prefere mostrar modelo X de biquíni na praia. Porque é com ela que precisamos nos preocupar. Os outros não são gente. Os outros? Eles? Nós? Grito porque essas questões não me são externas. Não! Não aguento mais saber disso calada e considerar que não é comigo. Porque é. E é porque sou um ser humano. E é porque o mundo vai além de minha limitada realidade. Grito para abrir os olhos. Grito porque estou sufocada. Grito porque o mundo é grande e eu sou pequena. Porque as desigualdades me doem como agulhas na pele. Grito porque não me contenho. Porque o silêncio mata lentamente, talvez ainda mais que as próprias injustiças. Grito porque meu movimento é limitado, não há espaço para os invisíveis nas ruas, nas câmaras, nas urnas. Grito porque fui muda por muito tempo. Grito pelo papel para marcar as palavras como tatuagem no corpo. Para fixar na mente dos que leem, porque hoje pouco se ouve. Grito porque ultrapasso minha existência e tenho a necessidade de ir para além de mim. Grito porque a luta é constante.
“Porque há o direito ao grito.”

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